Parque do Itatiaia tem 363 espécies de aves, uma diversidade que atrai pesquisadores de todo o mundo

RIO – Nas florestas mergulhadas em nuvens da Mantiqueira, as aves encontraram um paraíso. As matas protegidas pelo Parque Nacional do Itatiaia (PNI), entre os estados do Rio de Janeiro e de Minas Gerais, reúnem quase um quinto das 1.919 espécies do país. O parque chega aos 80 anos de fundação (o aniversário será no próximo dia 14) como um dos melhores lugares do Brasil para observação de pássaros. Seus 28 mil hectares oferecem concertos da natureza o dia inteiro.

Nas montanhas do parque, a Mata Atlântica tem muitas vozes. “No lusco-fusco do raiar do dia, quando as corujas se despedem, você ainda ouve o murucututu-de-barriga-amarela”, conta o ornitólogo Luciano Lima. Com quase um quilo e 50 centímetros, a coruja é a rainha das aves noturnas. E Lima, o maior especialista da avifauna de Itatiaia.

Quando o sol nasce, começa o coro da manhã. Nas florestas da primeira unidade de conservação do país, diz Lima, as vozes mais comuns são da juruva-verde, do arapaçu-de-garganta-branca e do falcão-caburé. Várias espécies de saíras cantam em tons metálicos. Na parte alta do parque, o pula-pula-assobiador parece onipresente. Com um trinado que ganha intensidade a cada nota, ele consegue chamar a atenção a uma longa distância.

Em meio a tantos sons, nenhuma voz das matas de Itaiaia cala tão fundo quanto a da saudade. Já se passou quase um século desde que “um som tão triste, que se parecia mais com o lamento de um espírito do bosque do que uma vibração de origem puramente orgânica” deixou o naturalista americano Ernest Holt em êxtase enquanto ele cruzava, num fim de tarde, a parte mais elevada das florestas da Mantiqueira. Era a saudade que cantava.

“A saudade (Lipaugus ater) é a voz mais característica do parque”,  destaca Lima.

Depois que a saudade se cala e a noite chega, as corujas voltam a reinar, voando das matas mais baixas aos campos do planalto. Foi essa extrema diversidade, em todas as horas do dia, que conquistou Holt, autor de uma obra pioneira sobre a avifauna da região, publicada em 1928. E também encantou Lima em seus tempos de menino. Hoje, o ornitólogo é o coordenador do primeiro observatório de aves do Brasil, o do Instituto Butantan, em São Paulo. Tinha 13 anos quando começou a pesquisar os pássaros do parque. Nunca mais parou.

Lima cuida da lista de aves da Mata Atlântica para o Ministério do Meio Ambiente, e, com o também ornitólogo Bruno Rennó, concluiu recentemente uma atualização, resultado de 18 anos de estudos de campo e de revisões de registros dispersos em diferentes publicações. Os cientistas chegaram a 363 espécies só dentro do PNI. Se somadas às encontradas no vizinho Parque Estadual da Pedra Selada — as duas unidades de conservação compõem a mesma região —, são 397.

“É uma riqueza muito elevada, mesmo para os padrões de megadiversidade da Mata Atlântica. Cerca de 60% dessas aves são exclusivas do bioma. Isso dá ao parque uma importância mundial “, frisa Lima.

O interesse internacional se traduz nas diferentes línguas dos visitantes estrangeiros que chegam a Itatiaia atraídos pela oportunidade de ver e ouvir aves com facilidade maior que em outros lugares.

“O PNI é um dos principais destinos de pesquisadores de aves brasileiros e estrangeiros “, afirma Lima. — No país, já temos cerca de 30 mil observadores.

A Mata Atlântica costuma guardar muito bem seus segredos. Aves, entre eles. Muitas podem ser ouvidas, mas raramente vistas. Ficam escondidas no emaranhado de folhas e galhos das altas copas da floresta. Nas trilhas de Itatiaia, porém, não raro se ganha o presente de encontrar pássaros tão diferentes quanto gaviões e colibris. Esses últimos são abundantes, inclusive o topetinho-vermelho, um arco-íris de asas pouco maior que um besouro. É um dos favoritos do fotógrafo Luiz Carlos Ribenboim, organizador do guia de aves do PNI, que será lançado no próximo dia 14. A obra, produzida com a colaboração de vários observadores, celebra o parque com imagens de 320 espécies.

“Queremos compartilhar encantamentos. Gostaríamos de atrair mais gente para se deslumbrar com as aves “, diz Ribenboim.

São as montanhas da Mantiqueira que dão ao PNI tamanha diversidade. A altitude é uma engenheira de matas. O tamanho das árvores, as espécies de plantas e de animais que delas dependem, tudo muda com a altitude. No parque, ela varia de 600 a 2.791 metros, no Pico das Agulhas Negras. Algumas dessas matas estão entre as mais altas do Brasil. São as chamadas florestas das nuvens, ou altomontanas, acima dos 1.500 metros. Com árvores de troncos cobertos por líquens e musgos, essas florestas escuras dia e noite, sempre enevoadas, criam um habitat peculiar. É nesse mundo de brumas que ecoa o longo assovio da saudade.

“Itatiaia é um laboratório vivo. E as florestas altas são o melhor lugar não só para observar e estudar aves quanto para a investigar o impacto das mudanças climáticas nos trópicos. O cenário no parque está em transformação” explica Lima.

Pássaro Desapareceu

No burburinho da floresta, uma voz não é ouvida há mais de meio século. Cientistas e observadores amadores só encontram silêncio nas buscas por exemplares de pararu-espelho (Claravis geoffroyi). Pombinha exclusiva da Mata Atlântica, foi coletada pela última vez na década de 1950. Era puro luxo no céu. A plumagem de suas asas tinha manchas de tons metálicos. Daí o nome espelho, que refletia o brilho do sol.

“Não existem registros documentados recentes da pararu-espelho nem no Itatiaia nem em qualquer outro lugar da Mata Atlântica. É uma das aves mais raras do Brasil”,  informa Lima.

A pararu pode estar extinta. Retrato da destruição da Mata Atlântica, dela talvez só reste o corpo empalhado em museus. Bem viva em Itatiaia é a saudade. Nas palavras de Holt, “uma vez ouvida, jamais será esquecida”.

O Parque Nacional

O parque fica na Serra da Mantiqueira, entre os estados Minas Gerais, Rio de Janeiro, e próximo à divisa com São Paulo. Seus limites alcançam os municípios de Itatiaia (RJ), Resende (RJ), Itamonte (MG) e Bocaina de Minas (MG)

 

Fonte: O Globo

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