Parque Nacional de Itatiaia celebra os 80 anos com novo centro de visitantes

Ao virar uma chave na mente depois de passar pela portaria da parte baixa do Parque Nacional de Itatiaia, entre Rio e São Paulo, o visitante começa a se surpreender com a riqueza de uma mata atlântica saudável.
É difícil fazer o cérebro se desligar das formas e dos sons urbanos para acionar o modo natureza. Mas vale insistir: o exercício ajudará a reforçar a importância de uma área de 28 mil hectares intacta entre as duas maiores cidades do país.
O contraste visual para quem sobe ao mirante do Último Adeus ratifica a razão de ser do Parque Nacional de Itatiaia, o primeiro do país.
Em junho, a criação da área vai completar 80 anos. A agenda de comemorações prevê a inauguração de um novo centro de visitantes, com réplicas da fauna local, como os felinos, os macacos, o tamanduá e o preguiça.
Lá no alto, de um lado, o rio Campo Belo, cercado de um verde exuberante. De outro, um mar de pastos e de plantações de eucaliptos. Não é preciso nem mapa para saber os limites do parque.
Fora do mirante, mas dentro das trilhas bem demarcadas, como a da cachoeira Véu da Noiva, destacam-se os detalhes da floresta.
Na mata atlântica e seus vários estratos de altura, a luz muda em segundos. Folhas e plantas se mexendo pode ser vento, respingo de água ou as centenas de espécies de aves que vivem em Itatiaia.
O que dá ao parque o status de um ponto de interesse internacional de observação de pássaros. Por isso, o ouvido deve ser calibrado para os novos sons ambientes da mata.
MATA ATLÂNTICA
“A mata atlântica aqui está muito bem preservada. É grande a eficiência de unidades de conservação como esta para a preservação da flora, afirma Alexandre Salino, botânico e pesquisador da UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais).
Antes de conversar com a reportagem, ele dava uma aula sobre as pteridófitas (grupo que engloba as samambaias) para um grupo de alunos de pós-graduação.
Salino sempre se surpreende com a diversidade e a exuberância de Itatiaia. “Há espécies vegetais em alguns lugares do parque, principalmente na parte alta, registradas apenas aqui, perto do pico da Neblina e nos Andes”, afirma o pesquisador.
NAS ALTURAS
A chamada parte alta é o local de natureza tido por muitos como um dos mais belos do país. Se, embaixo, a floresta está a menos de 1.000 m de altura, na chamada parte alta, nos campos de altitude, tudo fica acima de 2.000 do nível do mar.
Domina a paisagem, em dias claros sem nuvens ou neblina, os picos das Prateleiras e das Agulhas Negras, duas formações geológicas inesquecíveis. Há 70 milhões de anos, indicam os geólogos, houve uma explosão vulcânica na serra da Mantiqueira.
“O ponto alto do parque é o poder que tem de atrair as pessoas”, diz Gustavo Tomzhinski, chefe do parque, que é administrado pelo ICMBio.
Para quem procura uma observação mais intensa da natureza, os dias de semana são os ideais. Nos últimos dois anos, mais de 250 mil pessoas visitaram o parque. Menos de 10% em dias úteis.
No alto, nas trilhas suaves que levam à base do Agulhas Negras (é possível subir ao cume por meio de escaladas guiadas), novamente o modo natureza precisa estar ligado. O lugar é desconectado das dimensões humanas.
SÓ 52%
Bairros rurais, esqueletos de hotéis abandonados e outros prédios em funcionamento. Dezenas de casas de veraneio. Fazendas.
A regularização fundiária é um dos grandes problemas que pressionam a mata atlântica do Parque Nacional de Itatiaia, no Estado do Rio.
Para uma área que está prestes a completar 80 anos de idade, seria natural que todas as terras do parque estivessem em posse do poder público. Mas isso ainda está muito longe de ocorrer.
Apesar de ter havido avanço nos últimos anos, hoje só 52% das áreas do parque nacional mais antigo do Brasil estão com o governo federal.
Segundo ele, grande parte das terras está sendo comprada com dinheiro vindo de processos de compensação ambiental. Ou seja, de pessoas físicas ou jurídicas que precisam reparar seus danos feitos ao meio ambiente.
Mas haverá ainda muita negociação com quem vive dentro do parque, complementa Tomzhinski.
Fonte: Folha

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