Parte alta do Parque Nacional do Itatiaia disputa o título de região mais fria do Brasil

O calendário informa que o inverno só começa em 21 de junho. Mas há um lugar onde ele não pode começar porque jamais termina. Terra de inverno sem fim, a parte alta do Parque Nacional do Itatiaia (PNI), na Serra da Mantiqueira, entre Rio de Janeiro e Minas Gerais, não passa um mês do ano sequer sem temperaturas mínimas inferiores a 10 graus Celsius, revelam as três estações meteorológicas de lá. Na semana passada, o termômetro caiu abaixo de zero no início das manhãs e cobriu de gelo os campos do chamado Planalto do Itatiaia.

Conhecida apenas pelo inverno rigoroso, a parte alta do parque é, na verdade, gélida o ano inteiro. Nenhum outro ponto do país é tão frio de forma constante os 12 meses do ano. Menos de três horas de viagem e 227 quilômetros separam esse reino do frio do império do calor, isto é, o município do Rio. Na quarta-feira passada, 24 de maio, o gelo formava placas com sol já nascido nos vales e montanhas da parte alta da reserva. Às 6h58m, a estação meteorológica do Campo Belo marcava -3,9° C. Guardas e visitantes precisaram de roupas térmicas reforçadas para escapar do congelamento. No Centro do Rio, na mesma hora, fazia 20 graus Celsius. Para o termômetro passar dos 20° C no Planalto de Itatiaia só no verão, com sol de rachar, bem depois do amanhecer e em dias sem vento. Mesmo assim, à noite, a temperatura despenca.

Geladeira tropical

Os campos de altitude do Parque Nacional do Itatiaia estão entre as áreas mais frias do Brasil. A região do Parque Nacional de Itatiaia tem amplitude térmica semelhante à de desertos, tamanha a diferença do dia para a noite. A altitude é essencial para o frio. Em média, a temperatura cai um grau Celsius a cada 100 metros de elevação. Isso porque a altitude reduz a pressão e a umidade.

 

Temperatura no parque

— A altitude e as montanhas fazem a diferença. Pode até nevar mais no Sul, no inverno, devido à latitude, mas no verão é muito mais quente. Se as Agulhas Negras ficassem no Sul do Brasil, teriam neve eterna, pois no Planalto do Itatiaia é frio o ano inteiro. Não se trata de disputa, mas São Joaquim (SC), por exemplo,é 3 graus em média mais quente. O Vale do Campo Belo é o lugar mais frio disparado, com as menores médias anuais — diz o meteorologista amador e caçador de frio Artur Chiovitti, dono de uma das três estações, instalada no alto do Morro do Massena (2.580 metros)

Abismo nas montanhas

Segundo ele, Campo Belo tem o recorde não oficial de temperatura mais baixa do Brasil registrado por estação automática: -13,3°C em 21 de agosto de 2016. A região não tem estação oficial desde que o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) fechou a única que tinha por lá, numa área mais baixa, em 1942. Professora de Meteorologia da UFRJ, Claudine Dereczynski diz que o abismo na temperatura se explica pela altitude e a paisagem única do mais antigo parque nacional do Brasil, que completa 80 anos em 14 de junho. No Planalto, fica a mais elevada montanha do estado e a sexta mais alta do Brasil, o Pico das Agulhas Negras, com 2.791,5 metros. Há ainda a Pedra do Altar (2.665 metros), os picos do Couto (2.680 metros) e das Prateleiras (2.539 metros).

O Campo Belo abastece a cidade de Itatiaia e nasce num vale que pode ser o lugar mais frio do Brasil – Márcia Foletto / Agência O Globo

As áreas mais frias não estão no alto das montanhas, mas no vale entre elas, onde nasce o Rio Campo Belo — um dos contribuintes do Paraíba do Sul. Cercado por montanhas rochosas e coberto pela vegetação rasteira dos maiores campos de altitude do país, ele é um freezer natural em pleno trópico. A estação meteorológica do Campo Belo (2.430 metros de altitude) foi instalada pelo meteorologista amador Carlos Dias. A terceira estação, a de Furnas (2.470 metros), foi doada ao parque pelo grupo de caçadores de frio Brasil Abaixo de Zero

O Planalto do Itatiaia atrai admiradores do frio bem antes de o inverno chegar. O sol não tinha nascido na quinta-feira passada, quando o casal Thalane Soares, de 25 anos, e Renan Júnior Batista, de 29, desarmava a barraca perto da trilha para as Agulhas Negras. Eles chegaram na tarde anterior na expectativa de ver gelo. Às 6h20m fazia 0,6° C. Quando acordaram, às 5h, estava a -0,2° C.

“Soubemos do gelo e subimos para o planalto. Frio é sempre um show”,  conta Thalane.

SEM PIEDADE COM OS DESAVISADOS

Acostumado com o frio de numerosas noites passadas no parque, o guia de montanha Cesar Caffé coleciona fotos de placas de gelo, geada e torce pela neve, que não cai desde 2012. E, na nevasca de 1985, a espessura chegou a um metro, o suficiente para se esquiar nas montanhas.

“Este ano, o outono parece estar mais úmido, quem sabe não neva?”, diz Caffé.

Chiovitti concorda:

“Só não neva mais no parque porque é seco. Se este inverno for mais úmido, como o de 1985, poderemos ter neve.”

O fotógrafo Germano Viegas vai ao planalto quase toda semana atraído não apenas pelas montanhas, mas pelo frio.

“Há dias de sol e céu azul absolutamente gelados “, afirma Viegas.

Caffé diz que o vale do Campo Belo é o lugar mais vulnerável a geadas, em especial o lado esquerdo, conhecido como Vale dos Lírios.

“Enfrentar o frio das madrugadas não é fácil. Exige roupas e equipamentos adequados. Não há onde se abrigar. Quem não vier preparado vai congelar. Já vimos gente desistir de passar a noite, após ficar à beira do congelamento. Casacos comuns não dão nem para o início”, alerta ele.

COMO SE FORMA UMA GELADEIRA TROPICAL

A região do Parque Nacional do Itatiaia tem amplitude térmica semelhante à de desertos, tamanha a diferença do dia para a noite. A altitude é um fator essencial para o frio. Em média, a temperatura cai um grau Celsius a cada 100 metros de elevação. Isso porque a altitude diminui a pressão e a umidade. Durante o dia, a temperatura sobe com o sol quente. E o sol da montanha é relativamente mais intenso do que ao nível do mar. Mas, à medida que escurece, outros fatores entram em ação. A vegetação rasteira de campos de altitude e o terreno rochoso canalizam o vento. O ar frio, mais pesado, desce para o solo e, como não há floresta para ajudar a reter calor, ele se perde. As infindáveis rochas do lugar e as plantas baixas favorecem a volta da radiação, ou seja calor, literalmente para o espaço. O resultado é um frio excepcional, não importa o mês do ano

Fonte: O Globo

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