“Estamos no caminho certo”, diz presidente do ICMBio

Este mês o presidente do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), Ricardo José Soavinski, esteve no Parque Nacional do Itatiaia para participar  da comemoração oficial dos 80 anos do primeiro parque nacional do Brasil. Aproveitamos a oportunidade para conversar com ele sobre as conquistas do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC) e sobre os próximos passos para que essas áreas se consolidem como espaços geradores de riquezas ambientais, econômicas e culturais para a população.

Este mês comemoramos o aniversário de 80 anos do Parque Nacional do Itatiaia, o primeiro parque do Brasil. Que legado é celebrado?

Em aniversários, além de festejar, estamos sempre fazendo reflexões. A minha reflexão é  que esse parque está muito bem. Muito bem conservado, muito bem protegido e indo bem também do ponto de vista de visitação, que é um dos objetivos. Na área de pesquisa, o Itatiaia é um ícone, é o parque mais pesquisado do Brasil. Isso é extremamente necessário e fornece uma base técnica para fazer sua melhor gestão. Temos uma boa equipe, temos uma rede de apoiadores muito interessantes como ONGs, universidades, empresas privadas.

Contudo, ainda há alguns passivos, principalmente relacionados a regularização fundiária, o que não é um problema só desse parque, mas de várias unidades de conservação (UC). Entretanto, eu creio que vamos começar a resolver essa questão de maneira mais séria com dinheiro de compensação ambiental e de compensação de reserva legal, como está previsto no novo Código Florestal. Isso já está evoluindo bem para alguns outros parques, como o da Serra da Canastra, e aqui em Itatiaia tende a avançar rapidamente.

E como a situação do Itatiaia se compara a todo o SNUC?

Fazendo um contraponto do Itatiaia com o conjunto das UC, vemos que quase todas elas estão passando pelo mesmo momento. Hoje, a maioria tem plano de manejo, e outras cerca de 70 estão em elaboração. Além disso, muito mais parques estão abertos para visitação – já estamos atingindo 8 milhões de visitantes ao ano. Mas ainda precisamos crescer.

Existem unidades com um nível de implementação muito alto. Alcançam 100% da unidade com as terras pagas, com pesquisas e com concessões a empresas privadas na área de uso público. Iguaçu é um exemplo, onde a população de onças dobrou nos últimos seis anos, mesmo com a visitação tendo quase triplicado no mesmo período.

Se pensarmos que Itatiaia foi o primeiro parque, então são 80 anos do Sistema. De lá pra cá, criamos 328 unidades federais, que protegem quase 80 milhões de hectares. Isso equivale a aproximadamente 9% do território nacional. É muita coisa para administrar. Não é simples, mas com dedicação, boa vontade, bons parceiros e boas estratégias nós acreditamos que conseguiremos dar mais escala e atingir a implementação de um número muito maior de unidades em tempo menor e com qualidade.

Quais são os próximos passos para expandir as ações de parcerias nas UCs do Brasil?

Já que nós temos tantos apoiadores e tem dado tão certo, eu acho que nós devemos nos preparar melhor para trabalhar com eles.Temos que organizar melhor o que fazer e trazer mais gente para fazer conosco, seja por meio de parcerias com o setor privado – via concessões-, seja com apoio de empresas – doação ou patrocínio-, ONGs, universidades, governos locais e até as pessoas individualmente, como voluntárias.

Nós entendemos que isso é bom, é saudável e dá resultado. Então, o primeiro passo é dar abertura. A partir daí, é preciso se instrumentalizar. Por isso, estamos estruturando uma área para isso no ICMBio, para que possamos trabalhar melhor as parcerias. Temos um planejamento estratégico muito bem feito e com metas ousadas para atingir. É um processo de organização. Organizar, organizar, organizar e atrair gente para ajudar.

Com tudo isso, a gente espera poder comemorar, daqui a uns anos, como estamos comemorando hoje, a criação e implementação de mais unidades.

No ano passado, os Estados Unidos comemoraram 100 anos do Serviço Nacional de Parques (NPS, em inglês), quando ficou evidente a cultura forte de valorização dos parques pelos americanos. Aqui, comemoramos os 80 anos dos parques. Quanto falta para atingirmos o mesmo nível?

Eu vejo que eles consideraram os parques como um indutor do desenvolvimento, como uma forma de trazer dinheiro para uma determinada região. Isso se voltou para o bem dessas áreas porque, se alguém ganha dinheiro com conservação, essa pessoa não vai destruir a unidade. E deu muito certo.

Eles também investiram muito. Aqui, infelizmente, o investimento não aconteceu, durante esse tempo, no nível que deveria ter acontecido. Foi muito aquém. Tanto pelo número de pessoas trabalhando quanto pelo fato de não ter existido, durante anos, uma instituição voltada especificamente para a gestão dessas áreas. Em agosto, completamos dez anos do ICMBio, que tem esse foco. Antes, tínhamos o IBAMA, que sempre se dedicou muito, mas tinha muitas atribuições. Era quase impossível dar conta de tudo.

Sempre lutamos por isso e por mais dinheiro, mais parceria, mais entendimento da necessidade dessas áreas protegidas. No entanto, mesmo tendo demorado um pouco mais, vejo que essa consciência está começando a despertar na população. Lógico que há pessoas do contra, que volta e meia querem acabar com uma unidade aqui ou ali, mas acredito que é a minoria e que, em pouco tempo, irão entender a importância dessas áreas.

Somado a isso, os parques também têm que começar a dar resultado. Temos visto isso nesses parques que estão recebendo mais visitas, que estão mais qualificados agora. Muita gente enxergava esse valor apenas no exterior e, agora, está vendo no Brasil, o que está dando aquele orgulho patriótico.

Ainda precisamos dar mais escala, mas acredito que estamos no caminho. Mais do que atingir tantos milhões de visitantes, o que queremos é proporcionar bons serviços e que as pessoas, ao visitarem essas áreas, tenham uma excelente experiência de visitação, de convívio em uma área natural.

E qual é o seu desejo para os próximos 80 anos dos parques do Brasil?

Meu desejo é o de que nossa instituição cresça, implante essas unidades rapidamente e que tenhamos a população toda empolgada, conscientizada e se tornando os grandes guardiões dessas áreas. Que, cada vez mais, a população se conecte com a natureza e assuma o compromisso da conservação.

O Brasil tem uma responsabilidade enorme porque é grande e é um dos países com a maior biodiversidade, com muita água e muito importante para o próprio planeta. Então, precisamos trazer a população, como um todo, fazendo essa conexão com a natureza e despertando o sentimento de pertencimento nessas pessoas. Esse é o grande desejo.

Oitenta anos pode parecer muito tempo, mas eu acredito que vai acontecer muito antes disso.

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