Entrevista: três semanas de imersão nas áreas protegidas dos EUA

Nosso bolsista Cristiano Araujo Borges, Coordenador-geral de Produtos Turísticos do Ministério do Turismo, participou do Seminário Internacional de Planejamento e Gestão de Turismo em Áreas Protegidas. O curso oferecido, em setembro, pela Universidade Estadual do Colorado, nos Estados Unidos, alia conteúdo teórico ao conhecimento in loco em diversas áreas protegidas.

 

Como foi a experiência do curso?

Foi muito positiva, tanto em termos de conhecimento quanto em termos pessoais. Você tem a oportunidade de visitar os parques acompanhado do responsável pelas concessões ou de conversar com a pessoa que faz o salvamento de visitantes, por exemplo.

Outra coisa que eu achei excelente foi a diversidade do grupo. Éramos 29 participantes de 20 nacionalidades, o que promove um intercâmbio muito rico com realidades que são, ao mesmo tempo, distintas e semelhantes em alguns pontos. O mesmo desafio que temos aqui, o pessoal da Indonésia e do Malauí têm também.

 

Quais seriam algumas diferenças e semelhanças?

Eu acho que a gente tem um ambiente natural mais preservado. Nos Estados Unidos, eles têm estradas no parque inteiro, e isso assusta um pouco. Agora, a capacidade de aproveitar o potencial econômico do parque é um fator que eles estão anos luz à frente. Em qualquer área protegida que se visite tem alguém oferecendo algum produto ou serviço, cujo benefício ao final vai ser revertido para a própria unidade de conservação. No Parque Nacional de Yellowstone, por exemplo, pode-se comprar um jogo de Banco Imobiliário temático com os atrativos do parque.

Além disso, há um foco muito grande no visitante. Então eles entendem que aquele recurso que está sendo gerado com a entrada das unidades de conservação é para ações voltadas para melhorar sua própria experiência. Outra diferença é que em todo parque há uma associação arrecadando doações que vão refletir em melhorias na área protegida.

 

E como se dá essa relação com as associações?

Nesse ponto, temos um desafio em comum que é a dificuldade do poder público receber recursos de terceiros, já que o dinheiro vai para o caixa único antes de ser encaminhado para os parques. Nesse sentido, as associações são uma, uma vez que podem receber doações e usá-las para aplicar em melhorias no espaço.

 

Qual foi a experiência que mais te marcou durante o curso?

Acho que foi a chegada a Yellowstone, por ser um parque emblemático e por ter sido em um dia em que estava nevando, o que deixou a paisagem muito diferente.

 

Como você vê a aplicação prática da sua participação no curso?

Na verdade a aplicação já começou, pois já tivemos uma reunião para a definição de planos de ação para um projeto em parceria com o Ministério do Meio Ambiente que visa viabilizar infraestrutura e serviços mais adequados aos visitantes de alguns parque, por meio da aproximação com o setor privado. Nesse contexto, o curso deu outra visão. A gente volta enxergando possibilidades de trabalho e novas ideias que podem ser desenvolvidas aqui.

Uma coisa bem simples feita nos Estados Unidos é ter um sistema único de compra de bilhetes que facilita a vida do visitante e estimula a visitação a outras localidades, como um passaporte para você visitar todos os parques. Também há ações interessantes com a terceira idade, tanto como visitantes quanto trabalhando nos parques, muitas vezes como voluntários. Inclusive, eles têm um trabalho de voluntariado muito legal que também ajuda o parque a girar.

 

Que oportunidades você vê para o Brasil hoje em termos de ecoturismo?

Quanto ao potencial, a Organização Mundial do Turismo já aponta que nós somos o primeiro país em termos de recursos naturais.

 

Mas há ainda espaço para crescimento e um melhor aproveitamento desse potencial?

Sem dúvida alguma. Foi apontado no curso que o mesmo movimento que acontece aqui, de pessoas se juntarem para ações conjuntas que tragam resultados para as áreas protegidas, foi o movimento que eles fizeram nos Estados Unidos há quarenta anos, quando o sistema de parques foi estabelecido da forma como ele é hoje. Então, nesse sentido, estamos no caminho certo.

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