Por que os porto-alegrenses são apaixonados por parques

Matéria mostra a relação dos porto-alegrenses com os parques da cidade, publicada pelo portal GaúchaZH em 17/08/2018.

 

 

Depois do julho mais chuvoso dos últimos três anos e de um verdadeiro jejum de orla do Guaíba, fechada para obras desde 2015, o primeiro domingo de agosto pareceu ter um único destino para milhares de porto-alegrenses: o trecho revitalizado de 1,3 quilômetro à beira do Guaíba. A multidão que tem se espalhado pelos bancos, gramado, ciclovia e deques desde então — o que se repete quase diariamente, com maior intensidade nos fins de semana — pareceu ter exposto a sede da população por espaços de convivência e lazer a céu aberto.

Se a febre da orla tem proporcionado a reconciliação dos porto-alegrenses com seu principal cartão postal, ocupar espaços públicos é hábito antigo cultivado por quem vive na Capital. Qualquer dia ensolarado é desculpa para uma incursão a praças e parques, seja para praticar esportes, passear com o cachorro, fazer um piquenique ou simplesmente tomar um mate vendo o tempo passar.

Para a professora da Feevale, a relação dos porto-alegrenses com os espaços públicos, retomada nos últimos anos, esteve adormecida por diversos fatores, como o abandono das praças e parques pelo poder público e a falta de segurança. Ela acredita que o empenho em ocupar essas áreas com atividades de lazer e cultura, além de proporcionar uma convivência saudável com a diversidade, por atrair frequentadores de diferentes perfis, é também uma forma de sinalizar a preocupação da população com a segurança pública.

 

Prefeitura avalia conceder parques à iniciativa privada

O interesse da população, especialmente, pelas áreas verdes, motivou a prefeitura a contratar, em junho, um estudo para avaliar a concessão de todos os parques da cidade à iniciativa privada. A pesquisa elaborada pelo Instituo Semeia deve ser concluída no fim do ano que vem. A partir daí, a ideia é que os empresários, além de garantir a manutenção da área concedida, invistam em atrações de lazer, cultura e gastronomia — em troca, lucrariam com o consumo dos frequentadores.

— Vamos analisar as partes interessadas, as vocações e o perfil de visitação de cada parque para identificar os melhores serviços a serem prestados. Uma das coisas que já percebemos em Porto Alegre é que existe um uso desses lugares para contemplação: as pessoas usam o parque como extensão da vida, pegam o chimarrão, uma cadeira e vão para lá com os amigos — conta Fernando Pieroni, diretor-presidente do Instituto Semeia.

Ao todo, Porto Alegre conta com nove parques oficiais abertos à visitação, além de áreas verdes de menores proporções amplamente utilizadas, como a Praça da Encol e a Praça do Aeromóvel, que passou a lotar aos finais de semana após sua revitalização. Mas a falta de manutenção prejudica alguns deles, gerando maior concentração nos locais onde há melhor infraestrutura.

Para avaliar as condições de uso, a reportagem percorreu todos os parques da Capital durante a semana. Constatou que a Orla desponta como modelo, com brinquedos, banheiros e estruturas (ainda) em bom estado. Áreas adotadas, como o Parcão, também têm bom estado de conservação e proporcionam diversos usos. Já nos extremos da cidade, a precariedade é sentida. O parque Chico Mendes tem aspecto de abandono, além de ser foco de descarte de lixo irregular, e o Gabriel Knijnik, na Vila Nova, tem potencial desperdiçado: o mirante com vista para o Guaíba e a Zona Sul está fechado.

 

Segurança e liberdade para levar o mascote

 

Ao mudar-se para o bairro Passo D’Areia, há cerca de três anos, a estudante Isadora Guarnier ganhou mais que uma área verde a poucas quadras de casa. Dona do border collie Woody, descobriu no Parque Germânia um espaço com natureza, segurança e privacidade onde o mascote podia gastar energia sem entrar em conflito com outros cães e usuários.

— Quando eu morava na Cidade Baixa, ia direto com ele na Redenção, mas nunca me sentia muito bem, por causa da sujeira e da depredação. Além disso, sempre tem gente em todos os lugares. Aqui tem a vantagem de ter pontos mais tranquilos. Posso deixar ele bem livre — relata.

Apesar de o Germânia ser das únicas áreas verdes da Capital a contar com cachorródromo, a estudante aproveita a calmaria para deixar Woody, de 10 anos, o mais solto possível. O cenário ideal, conta, é durante a semana, quando o número de frequentadores é menor — boa parte deles vai ao local para praticar exercícios. Como costuma chegar da faculdade no fim do dia, no entanto, privilegia as idas ao parque nos finais de semana: sábado e domingo pela manhã a dupla bate ponto no local.

A boa estrutura do espaço foi o que mais surpreendeu Isadora à época da mudança. Acostumada a frequentar a Redenção, onde a manutenção frequentemente deixa a desejar, encantou-se com a limpeza e a organização do parque da Zona Norte. Encontrou seu oásis urbano na região de altos prédios e múltiplos shoppings centers.

— A gente tem tanto shopping, tanto lugar fechado, lotado. O parque é um lugar para desopilar, ficar ao livre. É bom para quem está cansado dessas caixas — diz.

 

Contemplação durante a prática esportiva

 

Só existe um jeito possível para a aposentada Míria Simas, 66 anos, praticar exercícios físicos: sob um céu azul, preferencialmente, sem nuvens, em meio às árvores do Parque Moinhos de Vento. Vizinha do Parcão há cerca de dois anos, vai ao local quase diariamente na companhia do filho, Charles Simas, para uma caminhada de uma hora.

— Só faço caminhada se for no parque, normalmente, pela manhã. Adoro estar ao ar livre. Aqui a gente já conhece as caras: dos que correm, dos que caminham, dos que vem tomar chimarrão, da tia da pipoca e do tio do coco. Tem umas pessoas muito legais — conta a aposentada, que antigamente costumava fazer caminhadas no Parque Maurício Sirotsky Sobrinho.

Por volta do meio-dia de terça-feira, Míria e Charles eram os únicos a utilizarem as barras de alongamento perto do lago para encerrar as atividades daquela manhã. O clima tranquilo do Parcão também é o principal atrativo para que o filho, que frequenta uma academia de ginástica, reveze os exercícios ao ar livre e em um local fechado.

— Aqui dá para contemplar, tomar sol e curtir o ambiente — diz o comerciante.

Mãe e filho acreditam que o sucesso da área verde com os praticantes dos mais diferentes tipos de esportes não é característica apenas do parque vizinho. Moradores de um apartamento, acreditam que locais que oportunizam o contato o ambiente e a luz naturais são naturalmente atraentes.

— Já fui em muitos lugares no mundo e acho que é assim em todos. É só olhar ao redor: até as tartarugas, agora, estão todas no sol. As pessoas precisam de luz. Em dia cinzento, nem venho — sorri Míria.

 

Tranquilidade para estudar e trabalhar

 

O escritório de Maurício Sortica, 29 anos, tem um gramado extenso, diversos bancos, luz natural e fácil acesso do bairro onde mora com a mãe. Para usufruir de toda essa estrutura, o professor de português e inglês sequer paga aluguel: basta pegar um ônibus ou chamar um carro por aplicativo e está no Parque da Redenção. É lá que, semanalmente, costuma preparar as aulas que dá em um curso pré-vestibular e outro de idiomas.

— Sempre gostei desse ambiente pra ir com os amigos quando era adolescente. Depois que eu comecei a faculdade, em 2006, precisava de um ambiente mais calmo para ler, e passei a ir para estudar. Peguei gosto e acabou se tornando um hábito — conta.

Concentrar-se em casa sempre foi um desafio para Maurício. O conforto do lar parecia mais convidativo a uma soneca do que à alta demanda de leitura exigida pela faculdade de Letras, e as múltiplas possibilidades de distração o faziam perder o foco nos estudos. Na calmaria da área verde, encontrou o ambiente propício para se dedicar às leituras.

Maurício vai à Redenção pelo menos uma vez por semana, munido de livros, lápis, caneta, celular e uma garrafa térmica com chá ou café. Aloja-se em um dos bancos espalhados pelo local ou na grama, onde costuma passar a tarde.

A opção pelo estudo no parque também permitiu conjugar o trabalho com as atividades de lazer. Não raro aproveita a ida à Redenção para encontrar com amigos ou estender o passeio a cafés do entorno.

— A casa das pessoas se tornou um ambiente restrito a certas interações, mais ligadas à família. Os parques e praças proporcionam uma extensão dessas possibilidades: você não faz só o que tem de fazer, faz outras coisas, encontra pessoas — conta.

 

Fonte: GaúchaZH

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